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Mais mobilidade, menos carbono

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quinta-feira, 22 de junho de 2017

Dois programas tomam forma para incentivar o mercado de biocombustíveis e estabelecer metas para toda a cadeia produtiva automotiva

Por Stefan Ketter, presidente da Fiat Chrysler Automobiles (FCA) para a América Latina*

 

O Brasil é reconhecido internacionalmente como um caso de sucesso pela participação de recursos renováveis em sua matriz energética. As fontes renováveis respondem por cerca de 40% da matriz nacional, com destaque para a bioenergia produzida a partir  da cana-de-açúcar, que representa notáveis 16% da energia gerada no país, considerando-se o etanol e a energia térmica e elétrica gerada a partir da biomassa. Esta é uma vantagem comparativa que o Brasil tem a contabilizar no conjunto das quase duas centenas de nações que estabeleceram na 21ª Conferência das Partes da Organização das Nações Unidas (COP-21) um pacto que representa enorme desafio de conter o aquecimento global. Também representa a resposta brasileira ao propósito de descarbonizar gradativamente a mobilidade.

A cadeia agroindustrial do etanol e o setor automobilístico acumularam ao longo de quatro décadas valiosa experiência no emprego do biocombustível na movimentação da frota nacional. Em 2016, dos cerca de 2 milhões de automóveis e comerciais leves licenciados no Brasil, 1,75 milhão saíram de fábrica equipados com motores flex, podendo empregar álcool ou gasolina simultaneamente. Isto representa 85% da comercialização de modelos novos. Também em 2016, o Brasil produziu cerca de 28 bilhões de litros de etanol.

As vantagens ambientais por trás destes números são muito relevantes, considerando-se que, em seu ciclo de desenvolvimento vegetal, a cana-de-açúcar absorve grande parte do CO2 que é liberado pela combustão do etanol dela derivado.

O patrimônio representado pelo acúmulo tecnológico alcançado no campo da bioenergia deve ser encarado não como uma missão cumprida, mas como o ponto de apoio para um grande salto qualitativo que o país precisa dar em direção às metas com as quais se comprometeu no âmbito da COP-21. Por isto, os clusters automotivo e sucroenergético estão articulando esforços em escala inédita, em busca de níveis mais elevados de tecnologia e gestão, para dar resposta às exigências de uma matriz de transportes mais limpa e sustentável.

Dois programas abrangentes – RenovaBio e Rota 2030 – estão tomando forma de modo articulado e planejado. De um lado, há um esforço para reordenar o mercado nacional de combustíveis, com ênfase nos biocombustíveis. De outro lado, está sendo discutido um novo regime automotivo com metas de longo prazo para eficiência energética, segurança veicular, pesquisa e desenvolvimento em engenharia, além de recuperação e adensamento da cadeia produtiva.

O programa RenovaBio busca organizar a oferta de biocombustíveis, de modo a superar as oscilações de política de preços e de volumes que caracterizaram os últimos anos. Como consequências práticas, o programa deve resultar na expansão da produção nacional dos atuais 28 bilhões de litros de etanol para um volume anual na faixa de 50 bilhões de litros em 2030, além de estratégias de preços e de estoques reguladores para assegurar o atendimento à demanda. Ao estabelecer diretrizes de longo prazo, o RenovaBio também estimulará a adoção de novas tecnologias com ganho de eficiência na produção dos biocombustíveis e desenvolvimento de novas alternativas, como etanol de segunda geração, do biometano, além do bioquerosene ou biocombustível para aviação.

A previsibilidade de oferta e preço relativo dos biocombustíveis é uma base essencial para os investimentos em ganho de eficiência energética dos veículos produzidos no Brasil. Recentemente a indústria automotiva apresentou às autoridades brasileiras uma visão estruturada de política industrial setorial, sintetizada em plano denominado “Agenda Automotiva Brasil”, contendo uma visão sobre os pilares necessários para um desenvolvimento sustentável de longo prazo, com ênfase para a eficiência energética. Esta agenda é um elemento para a construção conjunta do programa Rota 2030, que sucederá o Inovar-Auto e estabelecerá os grandes parâmetros para o setor até 2030.

Desde a ótica da indústria automotiva, a articulação entre os dois programas deve começar pela revisão das especificações dos combustíveis automotivos, estabelecendo padrões para teor de água no etanol, nível de mistura de etanol na gasolina, definição de octanagem da gasolina tipo C, características do biometano, e outros padrões técnicos indispensáveis para a otimização do uso dos energéticos disponíveis. Com base neste primeiro passo, é possível avançar em tecnologias que aumentem a eficiência dos motores e veículos no uso do etanol como combustível.

Os ganhos de eficiência energética e a utilização crescente de biocombustíveis têm impacto positivo e direto sobre a redução das emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE), sobretudo quando se avalia o ciclo ao longo de toda cadeia de produção e de uso do etanol e outros biocombustíveis – ou do campo à roda, conforme a expressão que adotamos para denominar o ciclo produtivo. A convergência de políticas públicas e de esforços privados em eficiência energética de veículos e motores e na oferta de mais e melhores biocombustíveis pode acelerar a implantação de tecnologias inovadoras e mais limpas, potencializando as vantagens comparativas do Brasil em agroenergia e contribuindo de modo decisivo para que o país alcance ou mesmo supere os compromissos assumidos no âmbito da COP-21.

Trata-se de uma via tecnológica natural para o Brasil frente a outras opções de mobilidade com menos carbono, considerando-se que esta é uma tecnologia dominada, comercialmente viável, logisticamente factível e ambientalmente eficiente. Aumentar a produção e participação do etanol na matriz energética brasileira permitirá ao país equiparar-se ou mesmo superar a legislação de emissões europeia e norte-americana, que são as mais rigorosas do mundo.

Assim, além de garantir a segurança energética de forma sustentável, o emprego da agroenergia em mais larga escala se concretiza em benefícios ambientais, que são cada vez mais valorizados e requeridos pelos consumidores e por toda a sociedade.

 

* Publicado originalmente no jornal Valor Econômico do dia 22 de junho de 2017

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