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“O carro vai se transformar em um aplicativo para smartphones”, diz Stefan Ketter, presidente da FCA Latam

“O carro vai se transformar em um aplicativo para smartphones”, diz Stefan Ketter, presidente da FCA Latam

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Em entrevista, o executivo faz um profundo balanço do atual momento da indústria do automóvel e também do seu futuro

Dividindo seu tempo entre duas funções estratégicas, como presidente da Fiat Chrysler Automobiles (FCA) para a América Latina e vice-presidente mundial de Manufatura do grupo, com responsabilidade pelas fábricas espalhadas por todo o mundo, o paulista Stefan Ketter aprimorou a habilidade de pensar globalmente e agir localmente. O êxito da implantação de uma estratégia de expansão global da FCA e suas marcas depende da capacidade de dialogar e de encantar o consumidor no local e na cultura em que está imerso.

Nesta entrevista, Ketter faz um profundo balanço do atual momento da indústria do automóvel e também de seu futuro e destaca as tendências de conectividade e mobilidade que farão do carro “um aplicativo para smartphones”.

A seguir, os melhores momentos da entrevista de Stefan Ketter:

“INOVAÇÃO É A PALAVRA-CHAVE”

“Quando a gente começa a perguntar, o consumidor diz que quer um carro veloz, mas de baixo consumo; um carro com espaço interno pra sua família inteira, para bagagens e equipamentos, mas pequeno o suficiente para estacionar no shopping center; ele quer todos os acessórios possíveis – inclusive os digitais – mas quer um preço popular. Ou seja, se fôssemos desenhar um carro para atender todos os desejos do consumidor, sairia um carro-frankenstein… O consumidor é volúvel em seus desejos, mas também pode ser implacável com as marcas. Para atende-lo,  inovação é a palavra-chave, especialmente num setor a cada dia mais competitivo e disputado. O consumidor não sabe traduzir em palavras o novo produto que deseja, mas sabe muito bem que sensações e experiências espera deste produto. Ele quer ser surpreendido. Por isto, as marcas que trazem surpresas e valor agregado vão se diferenciar no coração e mente do consumidor.”

INTERNET ANTES, CONCESSIONÁRIA DEPOIS

“O brasileiro é um povo conectado e comunicador. Veja quantos smartphones nós temos – são 89 milhões de aparelhos para 202 milhões de habitantes, 110 milhões de pessoas conectadas à internet. Este é um consumidor muito bem informado, que sabe que pode comparar antes de comprar. Então, transparência é chave para conquistar sua confiança. Cerca de 96% dos clientes vão à internet antes de comprar um carro e se informam muito bem. É por isso que as visitas às concessionárias estão menos frequentes – eram cinco lojas visitadas fisicamente quatro anos atrás, hoje são 1,7. Agora, as visitas são virtuais. Esta é uma tendência que veio para ficar e que muda a forma como articulamos nossos negócios.”

O CARRO DO FUTURO

“Sempre estamos tentando projetar o futuro, adivinhar como as coisas estarão organizadas. Vocês se lembram do filme Blade Runner? Era 1982 e eles previram o mundo em 2019, com uma Los Angeles poluída, difícil de viver. Ali já se falava de carro autônomo. Esta é uma tecnologia que ainda depende de regulação, mas que se desenvolve em etapas em muitos países. Alguns consultores preveem que até 2030 cerca de 15% dos carros rodarão sem interferência do motorista. Acho que o Brasil tem muitos desafios de infraestrutura de circulação, de organização do tráfego e de comportamento dos motoristas a resolver antes de aproveitar plenamente essa onda. O que vejo como tendência imediata é o avanço da conectividade. Temos certeza de que o smartphone será a central de conectividade desse consumidor do futuro. Creio que o carro vai se transformar em um aplicativo do smartphone, e não o contrário. É uma grande revolução tecnológica, sobre a qual temos de ser rápidos e participativos, para não perder essa evolução.”

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ATENÇÃO À EFICIÊNCIA ENERGÉTICA

“Entre os desafios mais urgentes da indústria está o de incrementar a eficiência energética dos carros. Esta é uma exigência não só da legislação, mas sobretudo dos consumidores, cada vez mais focados na redução do impacto ambiental de suas escolhas e hábitos. No caso dos automóveis, isto significa a crescente otimização dos motores a combustão interna, uma tecnologia que ainda deve se manter por vários anos. Uma tendência muito clara é o downsizing de motores, com propulsores menores, mais eficientes, com menor consumo e nível de emissões. Nós da FCA lançamos a família global de motores Firefly, de alta eficiência. Em uma competição recente de economia, modelos Fiat Mobi equipados com motor Firefly de três cilindros percorreram os mais de 500 quilômetros que separam a fábrica de Betim, em Minas Gerais, de São Paulo com meio tanque de combustível, com um desempenho notável de 27 km/l. Mas a eficiência energética vai além dos motores e abrange transmissões que otimizam o consumo dos carros e também a adoção de novos materiais. Aços especiais, plástico e alumínio reduzem o peso e aumentam a eficiência da conversão energética. A carroceria do Toro, por exemplo, tem 85% de aços nobres e diferenciados, pesa 80 quilos a menos e tem hoje a melhor performance torcional entre as picapes.”

ETANOL É VANTAGEM COMPARATIVA DO BRASIL

“Quando falamos sobre a matriz energética, o Brasil tem grandes vantagens, como talvez nenhum outro país no mundo. Temos grande disponibilidade de água e de produção de biomassa, especialmente para o etanol. O índice de energia renovável em nossa matriz energética é de 45%, o triplo da média mundial. Nós temos algo que é extraordinário, que é o etanol, que mitiga 80% das emissões dos gases de efeito estufa no ciclo de produção e utilização do combustível. Isso é algo único, que tem grande valor ambiental e estratégico.”

“O BRASIL SE DESINDUSTRIALIZOU ANTES DE FICAR RICO”

“Há um outro fenômeno em curso no Brasil, que é a redução do peso da indústria na composição do Produto Interno Bruto (PIB) do país. O Brasil se desindustrializou antes de ficar rico. A maior parte dos países desenvolvidos evoluiu da era industrial para a era de serviços quando sua renda per capita já era elevada. O Brasil, por sua vez, parou de se industrializar antes de ficar rico. Esse é um grande problema. Nós deveríamos ter continuado por mais tempo o ciclo de expansão industrial antes de entrar, gradualmente, numa fase de serviços mais desenvolvida. Isto teria aumentado nossa renda per capita. Daí decorre um grande desafio nacional: sem reindustrialização, nós não conseguiremos dar um salto na renda nacional e desenvolver os produtos que o mercado espera de nós.  Temos de modernizar nossa indústria e revigorar toda a cadeia de produção e fornecimento. Depois de dez anos fora do Brasil, quando voltei, notei que não apenas não havíamos evoluído, mas retrocedido. Hoje, a indústria perdeu estrutura,  elos importantes se enfraqueceram ou perderam competitividade. Como podemos ser competitivos se temos gaps na cadeia produtiva? Algumas pessoas me dizem que sempre teremos essa defasagem em relação ao exterior, mas, se é assim, temos que trabalhar para que essa defasagem não seja expressiva. É preciso reindustrializar nossa cadeia de fornecimento, renovar e ampliar a cadeia de valor no país.”

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“INVESTIMOS EM UM POLO AUTOMOTIVO INTEGRADO EM PERNAMBUCO”

“Colocamos nossas convicções em prática ao construir o Polo Automotivo Jeep, em Pernambuco, que inauguramos em 2015. Ali instalamos a mais moderna fábrica da FCA no mundo e assentamos em seu entorno 16 fornecedores de produtos e sistemas estratégicos. Integramos e fortalecemos nossa cadeia de valor. Investimos no alto índice de nacionalização de nossos veículos, desenvolvendo fornecedores. É isto que estamos propondo quando falamos de reindustrialização, de fortalecimento do produto nacional, de confiança no Brasil. E fizemos tudo isto apostando nas pessoas da região, investindo em talentos locais.”

O ESFORÇO PARA EXPORTAR

“Nós da FCA queremos exportar de 20% a 30% da nossa capacidade de produção. Esta é uma meta factível, pois o Brasil já foi um grande exportador de veículos. Mas atualmente há muitos entraves ao comércio exterior. Temos poucos acordos bilaterais de comércio, persistem deficiências de infraestrutura e fatores inibidores como taxas, impostos e flutuação cambial. Precisamos de um plano efetivo e de longo prazo para promover exportações, que não seja baseado em decisões oportunistas e imediatistas, mas numa visão de longo prazo, com previsibilidade e regras claras.”

“UMA HISTÓRIA BRASILEIRA É POSSÍVEL”

“Como brasileiro, e como alguém que está voltando ao Brasil depois de ter estudado e trabalhado muitos anos no exterior, eu observo claramente que temos uma tendência a desprezar o que é nacional. O que vem de fora exerce forte atração sobre o consumidor, parece ser melhor. Sinto que perdemos um pouco do orgulho de ser brasileiros. Este é um sentimento sem fundamento. O Brasil é capaz de grandes realizações em vários campos, como nas ciências, nas artes, no design, na indústria. É importante recuperar este espírito. Olhando para um caso recente da nossa empresa, o Fiat Toro, que é um modelo de grande sucesso e aceitação, foi projetado no Brasil. É um carro desenhado aqui e desenvolvido por aqui, com grande apelo mundial e um potencial enorme para exportação.”

O FUTURO É PROMISSOR

“Estamos focados em buscar soluções para os problemas conjunturais e estruturais não apenas da nossa indústria, mas para o próprio país. Tenho certeza de que o setor automotivo não vai acabar, de que a indústria brasileira não vai perder importância. Por isto estamos discutindo seu futuro e queremos que seja um futuro muito promissor. O nosso trabalho é fazer com que o Brasil não seja apenas um espectador do que se passa no mundo, mas que possa de fato participar da transformação que está em curso, ocupando seu lugar de grande economia mundial”.

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