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O colecionador de amigos

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domingo, 10 de abril de 2016

Umberto Cerri faz fotografias da Fiat desde o início dos anos 1970. Mas o que realmente lhe dá orgulho na carreira não tem a ver com automóveis

Dois caminhos conduzem o pisano Umberto Cerri à pequena Betim mineira no ano de 1973. O primeiro caminho é o da guerra. Nascido em 28 de setembro de 1933, Umberto cresceu em meio aos horrores da segunda guerra mundial, os bombardeios contra Pisa, os meses vagando pela Itália setentrional, seu irmão mais velho desaparecido desde o dia que os aliados chegaram à Sicília, a imagem do primeiro-ministro Mussolini dependurado pelos pés na Piazzale Loreto, morto e exposto à execração pública, a mãe morta enfartada de emoção ao reencontrar o filho soldado, a família desagregada. O outro caminho foi a fotografia, que herdou do pai, Guido Cerri, fotógrafo da família real na década de 1940. Suas memórias de infância se misturam à imagem do laboratório do pai, onde passava horas misturando o líquido revelador que entraria em contato com as pesadas placas de vidro. O desejo artístico e o trauma da guerra o motivaram a fugir do alistamento militar em direção ao Brasil. Cerri embarcou no Provance, em sua derradeira viagem ao Rio de Janeiro, em 1954, na última leva de emigrantes italianos em direção ao Brasil.

A assinatura do acordo entre a Fiat e o governo de Minas Gerais em 1973: foto de Cerri

A assinatura do acordo entre a Fiat e o governo de Minas Gerais em 1973: foto de Cerri

Na então capital federal, Cerri “apertou os dentes” e aceitou a oferta de um pequeno jornal para que trabalhasse como fotógrafo ganhando “menos de um salário mínimo”. Entre sua passagem pelo Rio, São Paulo e Belo Horizonte, passaram-se quase 20 anos – “No Brasil, me resgatei e me recuperei dos horrores da guerra”, diz. Foi em 1973 que, sob a fama de maluco e inconsequente, que se mudou para Betim, depois que algumas de suas fotos para a Fiat foram elogiadas nos escritórios centrais da empresa, em Turim. A assinatura do “Acordo de Comunhão de Interesses entre Fiat e o Governo do Estado”, o marco-zero para a implantação da fábrica brasileira da montadora, foi registrada por ele.

Quando, três anos depois, a Fiat finalmente abriu as portas de sua fábrica naquele “vilarejo periférico”, Cerri já tinha havia construído a linguagem fotográfica da empresa – e se estabelecido como um dos principais nomes da fotografia industrial do Brasil. Com um portfólio desses, surpreende a forma como Umberto Cerri avalia sua longa trajetória: “Eu não me vanglorio de nada da minha vida de trabalho”, diz. “O que me deixa verdadeiramente orgulhoso é ter visto muitos profissionais passarem por aqui, serem formados aqui. Ajudei muitos deles a montar sua empresa própria, e introduzi ao mundo da fotografia pessoas que me reconhecem como um mestre e me respeitam muito. E o que é mais importante: são todos amigos.”

cerri ferrari

Cerri em seu estúdio, se preparando para clicar uma das máquinas que lhe deu fama como fotógrafo

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